JORNAL MILENIO VIP

Histórias de Magé

David D’Almeida: O Homem e o poeta

O ZERO focaliza o David nesta edição por um motivo muito simples: é que o nosso poetinha, a denominação e intencional, para lembrar Vinícius, tem sido uma das pessoas que conseguiram desencavar muita poesia que ficaria, fatalmente, engavetada; quando descobre entre seus alunos e conhecidos um jovem sensível o suficiente para transmitir um recado, procura quebrar sua inibição e fazê-lo deslanchar.
Além disso o David possui uma coisa realmente rara hoje em dia: sensibilidade vinte e quatro horas por dia.

O ZERO – David, você como professor está sempre em 
contato com a faixa jovem, que deve ser, talvez a mais solicitada e a mais atingida pelo O ZERO. Sobre essa vivência, que é que você nos diz?

DAVID –
Olha, é a faixa de comunidade que eu acho mais importante, é uma faixa que vem trazer para nós, os jovens mais velhos uma série de conhecimentos, além de viverem testando os nossos. A gente sente nessa turma uma ânsia de viver intensamente, de comer mesmo a vida, posso mesmo dizer que como professor tenho aprendido mais do que ensinado.

O ZERO – Uma coisa que parece ocupar um lugar real na vida 
dos jovens são os problemas relacionados com o sexo. Você, com sua sensibilidade poética e sendo um homem vivido nas coisas do amar, logicamente possui uma visão personalista dessas coisas; como é isso?

DAVID – Outro dia lá em Santo Aleixo, ao terminar uma aula, fui cercado por um grupo de 
rapazes e moças que queriam me fazer uma pergunta. Era o seguinte: se era muito importante a moça ir virgem para o casamento …

O ZERO – Se era importante pra você ou no conceito da sociedade …

DAVID – Bem, acho que no conceito geral, a pergunta em si foi no sentido de dever social 
relativamente aos velhos tabus, essas coisas. Eu respondi que realmente é muito importante que a moça, ainda agora vá virgem para o casamento…

O ZERO – Um tanto medieval, não?

DAVID – Não, não é medieval não. É que vocês mais jovens pegam os problemas, pensam que 
resolveram mas deixaram determinados ângulos sem resposta, daí a resposta não é total, como só a vivência mais dorida pode dar. Então é importante, não é o essencial, mas é importante.

O ZERO – Bom, e o porquê?

DAVID – Eu vou chegar lá. É que geralmente o ato sexual pré-casamento é praticado de uma 
maneira um tanto violenta e sem uma necessária preparação ambiental, então a mulher se deixa envolver pela dúvida, e pior que isso, sem a devida preparação ambiental ela não chegou à plenitude do ato, espiritualmente. Para o homem no mais das vezes, o ato sexual é uma questão de espirrar, uma questão de relaxamento, a mulher quer muito mais que isso; e depois desse espirro é que vem a sensação real e infinita do orgasmo. Depois do frenesi físico e que deve vir a sublimação da coisa e é muito importante que essa sublimação venha na primeira noite e não que ao invés a se auto censurar, na dúvida se o que fez está certo ou errado.

O ZERO – Isso aí é injunção de sociedade, pô!

DAVID – Não, não e não; isso é próprio da mulher. A sociedade pode evoluir e tal mas essa 
característica está entranhada na pele da mulher.

O ZERO – Para ser prático, com essa posição, VOCÊ, particularmente se casaria com uma 
mulher que já era?

DAVID – Claro. A pureza da mulher não está na virgindade. Isso é importante analisado pelo 
lado feminino, a mulher se ressente, se culpa. O homem quer a posse, a mulher vai muito mais além.

O ZERO –
Mas se o homem é tão mecânico, de onde vem toda essa poesia, por exemplo?

DAVID – O ato sexual em si é um ato mecânico, material, agora, é preciso que o homem se 
despoje do machismo e procure também sublimar o ato. E ele consegue isso, não com uma mulher, mas com “a” mulher.

O ZERO – Mudando de assunto; e o seu livro?

DAVID – Tá tudo parado rapaz, não dá tempo.

O ZERO – É o primeiro?

DAVID – Bom , poesia daria pra fazer uns dois, mas romance é o primeiro sim.

O ZERO – Dá uma dica do tema.

DAVID – Olha, quando a gente começa a escrever um livro ele vai se modificando de acordo 
com a transformação dos personagens, principalmente quando este está livre para viver dentro do livro, como é o caso.

O ZERO – Você tem parceria em várias músicas, com vários compositores, que tal a poesia 
como letra de música, atualmente. os baianos, por exemplo?

DAVID – Essa bahianidade vai passar …

O ZERO – Já disseram isso há dois anos atrás.

DAVID – Bom, lógico que a música é eterna, mas passa, como passou a bossa nova.

O ZERO – Ah bem, pensamos que era por falta de qualidade …

DAVID – O que acontece é sempre uma busca constante em todos os setores da vida, 
principalmente na arte.

O ZERO – Parece que você teve uma fase plástica, pintura ou desenho pelo menos.

DAVID –
Isso tá voltando. Nunca tive nenhuma preparação, a jogada era óleo sobre madeira mas tudo na base da sensibilidade mesmo

O ZERO – Quem é o bom atualmente?

DAVID – É difícil de dizer, tem muita gente boa por aí.

O ZERO – Algum Papa?

DAVID – Tem Papa não, rapaz. É uma turma de jovens e antigos que, cada um com suas 
características dão seu recado. Agora, outra coisa genial é esses grupo de jovens voltados para o artesanato.

O ZERO – Aqui em Magé, você não acha que a juventude se omite bastante?

DAVID – A juventude nunca se omite. O que falta é uma coalização, uma integração maior dos 
que gostam da coisa.

O ZERO – Pode e deve ser o elemento encarregado de promover essa integração, porque 
talvez por pequeno o grupo que lida com música, poesia, artes plásticas, essas coisas, aqui em Magé, o pessoal é o muito bom [se] exprimindo, quase ótimo. É só a turma entender e aceitar o recado de vocês e vai aparecer muita coisa boa por aí.