JORNAL MILENIO VIP

Histórias de Magé

Magé, uma homenagem pelos 447 anos

Nasci na Cidade de Magé, situada na Baixada Fluminense, na parte Norte e central da Baía de Guanabara, às margens de um rio de mesmo nome.


Meu pai era de família mageense e minha mãe  carioca.

Na minha infância morei na cidade de Magé, mas a partir de um certo tempo, minha família se mudou para o Rio de Janeiro, onde vivi a minha adolescência e, depois, tornei-me adulto. Mas meu pai continuou nela, sua atividade de Tabelião do 2º  Oficio, e por essa razão, ouvindo-o contar histórias de nossa terra, fiquei com a minha mente impregnada da grandeza que ela conquistou, sobretudo no século XIX.

Devido a isso, e ao fato de que meu pai amava sua terra, e ele ter tido dois tios na Marinha, um que chegou a contra-almirante, tendo este estado na Guerra do Paraguai e outro atingido o posto de capitão-de-fragata, tive a minha vocação estimulada para ser, também, "Marinheiro".

Meu pai, quando moço, tentou entrar para a Marinha, para um quadro então existente, o de contador naval; mas, isto não foi possível, pois quando sua pretensão de ingresso na Marinha foi submetida à aprovação do Almirante Alexandrino Faria de Alencar, então, na condição de ministro da Marinha, este impugnou seu nome, numa relação de candidatos, por motivo pessoal.

Contou-me meu pai, que seu nome, Agenor Pinto da Silva Coelho, ao ser submetido, numa relação dos que iriam ser admitidos para aprovação, o ministro teria tido possibilidade de identificar sua origem familiar, e, então, perguntado a um seu assessor, se ele era aparentado com um tio do mesmo, na época, ainda na ativa e almirante, e que não fora revolucionário e sim florianista. Tendo tido resposta afirmativa, riscou o nome de meu pai, sumariamente.

Alexandrino tinha sido revolucionário na chamada Revolta da Armada, de 1893, chefiada, primeiramente, pelo Almirante Custódio de Mello e depois pelo Almirante Luiz Philippe Saldanha da Gama. Este evento dividiu muito as opiniões no âmbito da Marinha, os que eram partidários dela e os que ficaram solidários com o governo, chefiado pelo Marechal Floriano Peixoto, muito embora, ao término, tivesse ocorrido a concessão de uma anistia, o que permitiu o reingresso na Marinha, dos que tinham sido revolucionários.

O nome Magé, vem do tupi-guarani, Mbage com o significado de feiticeiro. Em outro tempo foi comum se dizer desse topónimo, de forma depreciativa, "Magé, má gente e má maré". Essa característica de "má maré" decorre do fato de que os rios da "baixada" nascem nas serras de Petrópolis e Teresópolis, encachoeirados, perdem suas forças ao desaguarem na Baía de Guanabara, em formas tortuosas, e com pequenas profundidades nas suas barras; e o rio Magé é um deles. Ainda, Magé foi conhecida, em outra época, como "Terra do Dedo de Deus", por estar esse ponto culminante da Serra dos Órgãos, então, no interior de seus limites e, não, nos do município de Teresópolis, como muitos, equivocadamente, supunham.  Entretanto, o desmembramento sofrido por Magé, em sua área inicial, para ser criado o atual município de Guapimirim, em 25 de novembro de 1990, anteriormente um seu distrito, hoje, não merece mais essa denominação.

A grande Magé, como era identificado o fundo da baía, cobria extensões terrenas no sentido de sua situação geográfica, desde o rio Estrela, a oeste, até o rio Macacu, a leste, como sendo uma freguesia, expressão aplicada pelos colonizadores portugueses a certo tipo de divisão administrativo-territorial.

Nessa Magé, foi gerada uma categoria social, economicamente expressiva, com base em atividades agrícolas, de cultivo de banana, mandioca e cana-de-açúcar, o que gerou uma sociedade onde se encontrava um conjunto significativo de funcionários de governo, juristas, comerciantes e militares, atuantes na vida política do nosso país, no período do Império brasileiro; e mesmo nos primeiros anos da República. Entretanto essas atividades decorriam, especialmente, do emprego de mão de obra escrava nas fazendas que ali existiam e na desobstrução e manutenção de rios, para fins de navegação e transporte humano e de mercadorias, além de outros fins, como estradas, como, por exemplo, a abertura de caminhos para "as Minas Gerais", através das serras que se situam ao norte da região em questão.

Um exemplo desse prestígio pode ser lembrado que a nossa Marinha deu o nome de Magé a um de seus navios, uma corveta, por vezes também classificada de canhoneira, de casco de madeira e de propulsão mista a vela e a vapor, mandada construir na Inglaterra, em 1850, com vista a dispor de meios navais adequados a uma nova tarefa, que lhe fora especialmente atribuída, a do combate mais eficaz ao tráfico negreiro.

Como decorrência da pressão política que a Grã-Bretanha nos fazia - desde o tempo do Príncipe D. João no Brasil - com base em um ato de seu governo, conhecido como Bill Aberdeen (1845), que proibia o tráfico em questão, e possibilitava que seus meios navais praticassem ações lesivas à nossa soberania, como a de entrar em nossas águas territoriais, até mesmo em portos e baías, no empenho de reprimir atividades desse tipo que prejudicassem seus interesses comerciais. Tal fato provocou em nosso governo a emissão de um ato legal conhecido como Lei Euzébio de Queiroz, de 4 de setembro de 1850, que determinava, taxativamente, o término do tráfico de escravos, da África para o Brasil, e atribuía à nossa Marinha a tarefa de reprimir essa atividade que tinha passado a ser ilegal.

Assim, a Marinha contribuiu, e de forma eficaz, para cessação do tráfico negreiro, que era a principal sustentação da escravidão no Brasil. Esse fato teve um efeito gerador, embora secundário. A diminuição do número de braços escravos nas atividades econômicas em que eram aplicados motivou, posteriormente, o conhecido fluxo de imigrantes de origem europeia para o nosso país, com o propósito de substituí-los. 

Entretanto, deve ser lembrado que o nosso governo, já havia emitido a "Lei de 7 de novembro de 1831 - Declara livres todos os escravos vindos de fora do império e impõe penas aos importadores dos mesmos escravos"- também por pressão da Grã-Bretanha - mas o tráfico continuou sendo praticado.

Os nossos navios de então, eram de certo porte e com propulsão a rodas e. por vezes, mistos, de panos redondos, portanto de certo vulto e lentos, e os navios negreiros eram menores, em maioria, de panos latinos e, assim, mais rápidos, o que dificultava a identificação e a interceptação, gerando, em consequência, uma condição que dificultava a apreensão dos mesmos.

Por essa razão a nossa Marinha, para melhor se equipar e atender a sua nova tarefa, encomendou na Inglaterra, inicialmente, um conjunto de quatro navios, que foram os primeiros de propulsão a hélice que tivemos, e se chamaram, Magé, Beberibe, Jequitinhonha e Yiamão (acidentada no Rio de Janeiro, em 7 de junho de 1862, quando docada no antigo Dique Imperial, hoje Dique Guanabara, e a porta do mesmo se rompeu). Eles foram, inicialmente, empregados com atuação destacada, na repressão ao tráfico de escravos, da África para o Brasil e, depois, no Estuário do Prata, devido à situação política que então ali se agravara, e inclusive na Guerra do Paraguai especialmente a Magé, a Beberibe e a Jequitinhonha, tendo as duas últimas, participado do maior feito naval de nossa Marinha, a Batalha do Riachuelo, onde a Jequitinhonha se perdeu. Deve ser acentuado, face ao propósito maior dessas notas históricas de nossa pátria, que a CVMagé, também atuou, destacadamente, nas nossas campanhas militares no Prata, inclusive na do Paraguai, conforme comprovam algumas referências constantes em nossos anais dessa época.

É interessante mencionar, que as embarcações dos traficantes, por vezes, tentavam burlar a repressão, como comprovam os "Autos de apreensão" promovidos pela nossa Auditoria de Marinha, bem como os Termos de Viagem, correspondentes, de nossos navios, e hoje arquivados no Arquivo Nacional (estes, infelizmente, em precárias condições de conservação e quase ininteligíveis).

Entretanto, deve ser lembrado que o nosso governo, anteriormente, já havia emitido, também, por pressão da Grã-Bretanha, a "Lei de 7 de novembro de 1831 - Declara livres os escravos vindos de fora do Império e impõe penas aos importadores desses escravos", - mas o tráfico continuou existindo ilegalmente. Essa situação gerou uma expressão até hoje bastante comum: "Isso é para inglês ver"!

A lei citada teve um efeito imediato na redução do tráfico, em decorrência da ação de nossos navios, cujo número foi aumentando,  como comprova a atuação de nossa Marinha, através da Divisão Naval do Leste que teve como base o Porto de Cabinda, em Angola e que, entre 1855 e 1858, "varreu" o tráfico ainda existente, mesmo após a Lei Euzébio de Queiroz, e de outras leis que foram sendo, sucessivamente, emitidas: Lei Joaquim Nabuco de Araújo, que previa sanções para autoridades que encobrissem o contrabando de escravos (5/6/1854); Lei do Ventre Livre (ou de Rio Branco), que tornava livres da escravidão, aqueles nascidos a partir da data de sua emissão (29/9/1871); e Lei dos Sexagenários (ou de Cotegipe), que libertava os escravos que atingissem a idade de 60 anos (28/9/1885). A decorrência desses fatos foi a redução drástica que teve o tráfico de escravos para o Brasil (que se fazia apenas e de forma clandestina em certos locais de nosso litoral, como Porto das Galinhas, nas Alagoas, na Baía da Ilha Grande e no sul em Santa Catarina, resultando na queda de nossas atividades econômicas, por falta de braços para bem exercê-las, e motivando, posteriormente, a vinda para nosso país, de emigrantes europeus, especialmente para a Região Sul. Para superar a situação ora comentada, que culminou com a chamada Lei Áurea (13/5/1888), foi possível, finalmente, acabar a escravidão no Brasil.

Tais fatos resultaram no abandono dos campos na região de Magé, como, de resto, por todo país, que, então, entrou num processo de decadência e provocou o surgimento de doenças, como o impaludismo, tifo e febre amarela, agravando a crise social e económica existente, que só veio a ter alguma recuperação, na década de 30 do século XX, com os trabalhos de saneamento da Baixada, que ali foram executados pelo governo federal.

Ainda sobre o topónimo Magé, por exemplo, cujo navio desse nome teve mostra de armamento em 17/4/1853, podem ser mencionados outros fatos: que o ínclito Duque de Caxias, é também mageense, nasceu em terras de Magé, na Fazenda São Paulo, hoje destruída. A relação dessa figura destacada da história de nossa pátria com Magé se acentua, se se recorda que dois de seus tios, que tiveram títulos nobiliárquicos e ações destacadas no Império, inclusive na luta por nossa independência contra os portugueses, na Bahia, um foi o Barão de Magé e outro, Barão de Suruí (até hoje, nome de um distrito de Magé); ter sido ele batizado em igreja, também situada em terras de Magé; e tido sob seu comando um batalhão, na Campanha de Minas, em nosso Período Regencial, na 2a Coluna do ataque à Santa Luzia, próximo à cidade de Barbacena, em Minas Gerais, o 2° Batalhão Provisório de Guardas Nacionais de Magé. A concessão do título nobiliárquico de Barão de Caxias, a Luis Alves de Lima e Silva, este seu nome de batismo, foi decorrência de sua atuação, ainda como coronel, na repressão a um levante, a Balaiada, ocorrido no Maranhão (1838-40), na cidade de Caxias, e gerado por motivos políticos e sociais, durante o nosso Período Regencial. O seu título de Duque de Caxias ele só recebeu após o término da Guerra do Paraguai, durante a qual foi, apenas, marquês.

Por ser também um fato histórico, relacionado com o presente tema, menciono ainda que, nos idos da chamada Revolta da Armada, de 1892-95, contra o Presidente Floriano Peixoto, ocorreu um episódio em Magé, que ficou na história, conhecido como os "Horrores de Magé".

Os florianistas tinham ocupado o litoral da atual Baía de Guanabara, com tropa e artilharia, visando limitar a liberdade de ação dos revoltosos que ocupavam navios revoltados de nossa Marinha. Suas tripulações sobreviviam com alimentos e água obtidos na parte norte da baía, especialmente na cidade de Magé, convivendo, normalmente, com a população local. Para isso, mantinham, ali, um pequeno contingente militar, sob o comando de um oficial, o lo Ten. José Augusto Vinhaes, desde meados de 1893.

Tal situação chegou ao conhecimento dos governistas, que decidiram atacar Magé, com um efetivo bastante superior, constituído de um contingente de Cavalaria, algumas Praças da Brigada Policial do Rio de Janeiro e uma Ala do 8o Batalhão da Guarda Nacional do Rio de Janeiro, sob o comando do Ten. Cel. Manuel Joaquim Godolphin, do Exército, visando acabar com aquele ponto de apoio que os sublevados mantinham.

0 ataque se deu no dia 21 de fevereiro de 1894, conduzido com extrema violência, resultando em mortos, feridos, de parte a parte, com a vitória dos florianistas. e a fuga dos seus contendores, que tinham sobrevivido.

Essa ação foi praticada com atos de degola, saques e depredações desproporcionais, por toda a cidade.

A repercussão negativa da mesma resultou em que o Jornal do Brasil de então, enviasse à cidade, posteriormente, um jornalista para reportar os desatinos que ali tinham sido praticados pela tropa legalista. Os relatos publicados sob o título de "Os Horrores de Magé", podem ser conhecidos nas coleções da época, relativos aos meses de janeiro a março de 1895, do referido jornal.

Ademais, em terras de Magé, foi construída a chamada Fábrica de Pólvora da Estrela, do nosso Exército, e a primeira estrada de ferro para Petrópolis, muito utilizada pelos integrantes da Corte, que embarcavam na Praça Quinze, na cidade do Rio de Janeiro, e seguiam para o assim chamado Porto da Estrela, a fim de tomarem trens destinados a Petrópolis e vice-versa.

E mais, o Porto da Estrela no rio Estrela, que na época era considerado um dos mais movimentados de nosso país; e que se ligava ao Porto de Pilar, passando próximo à Fazenda São Paulo, onde nasceu o Duque de Caxias, de cuja sede, hoje, restam, apenas as fundações, se situava em "terras de Magé".

No final deste artigo apresento citações e documentos em que me baseei para escrevê-lo, unicamente com o propósito de divulgar o papel que nossa Marinha exerceu na cessação da escravidão, em nosso país e a história da minha terra natal.

O relato desses fatos, agora e aqui rapidamente comentados, pode se encerrar, na forma quase de um "necrológio", com a recordação de que a CV Magé teve seu fim na mostra de desarmamento, ocorrida em 17 de março de 1883; que o rio Magé foi que lhe sugeriu o nome; e que a cidade de Magé, surgida às margens do mesmo, oficialmente, tem como referência de sua criação, a data de 9 de junho de 1789, e, portanto, são passados quase 300 anos de sua existência.