JORNAL MILENIO VIP

Histórias de Magé

Uma Francesa em Magé

Os relatos de viajantes europeus que visitaram o Brasil no Século XIX são utilizados com freqüência nos estudos históricos. E não é para menos! Escritos sob variados pontos de vista, esses relatos produziram representações sociais sobre o país e até hoje fascinam os leitores por sua riqueza de detalhes, seja com impressões elogiosas sobre a geografia brasileira ou de estranhamento diante dos costumes de sua gente.

Muitos desses viajantes estiveram em terras mageenses e registraram aspectos da vida cotidiana na localidade. Entre- eles podemos citar: John Luccock, Jean Baptista Debret, Charles Ribeyrolles, Auguste de Saint-Hilaire, Georg Heinrich von Langsdorff, João Mauricio Rugendas, João Emanuel Pohl e João Mawe.

Ao analisar a lista de estrangeiros que visitaram o Brasil nesse período, logo se constata que, entre os inúmeros relatos de viagem, poucos foram escritos por mulheres. E no caso específico de Magé isso ainda é mais raro.

Porém, os leitores têm hoje uma grata surpresa ao encontrar nas livrarias a obra Uma Parisiense no Brasil, da artista francesa Adèle Toussant-Samson. Publicado originalmente na França, em 1883, o livro foi traduzido para o português e lançado no Brasil no mesmo ano, mas logo caiu no esquecimento. Em 2003, motivada por uma reedição lançada nos Estados Unidos dois anos antes, a Editora Capivara apresentou ao público brasileiro as memórias de Adèle Toussant-Samson, com suas observações sobre o país nos doze anos em que morou no Rio de Janeiro, durante a década de 1850.

Filha de um ator, professor de teatro e autor de comédias da Comédie Française, Adèle Toussaint-Samson e seu marido Jules Toussaint resolveram emigrar para o Brasil onde, conforme se dizia na época, em dez anos seria suficiente para enriquecer (o que de fato não ocorreu). De volta à França, uma viagem de D. Pedro II a Paris, em 1870, permitiu que Adèle publicasse suas memórias, primeiramente em fascículos publicados no jornal Le Fígaro. Dona de um estilo agradável, ao mesmo tempo irônico e perspicaz, a viajante francesa registrou suas impressões sobre o Brasil e suas dificuldades de adaptação à vida na capital do Império. O convívio social na cidade, o tratamento dispensado aos escravos, a epidemia de febre amarela e a reclusão da mulher foram temas abordados com bastante propriedade pela autora.

Passados alguns anos de sua chegada ao Brasil, tendo já estabelecido uma rede de contatos sociais, Adèle e seu marido foram convidados a passar uma temporada na fazenda de um amigo, localizada em terras mageenses.
Na terceira parte do seu livro, sob o título A Fazenda, a viajante registra sua partida do Rio de Janeiro, sua chegada ao Porto de Piedade e suas viagens “pelo interior”, sempre enaltecendo as belezas naturais do recôncavo da Baía de Guanabara. Do mesmo modo, ela tece comentários não muito agradáveis, pode-se dizer, sobre a impressão que teve ao desembarcar em Piedade. “Que triste porto era aquele, naquela época! (...) Conduziram-me a um quarto para que pudesse, à vontade, vestir meu traje de amazona. A sujeira daquele lugar não pode ser descrita. Creio que uma vassoura nunca o visitara!”, relata a viajante francesa.

Essa má impressão, porém, desapareceu na medida em que a viajem prosseguia. “A estrada, ao sair de Piedade, é no início bastante feia, quase sem vegetação, durante cerca de uma meia légua. (...) Pouco a pouco, aparecem as árvores e, enfim, ladeia-se uma floresta virgem, onde os gritos dos macacos e dos papagaios o vêm lembrar de que está no Brasil. (...) Todo o caminho, então, não é mais que um encantamento”.

Após três horas de viajem a cavalo, Adèle Toussaint-Samson chegou à Fazenda São José, localizada entre os atuais bairros do Rio do Ouro e Cachoeirinha, no Distrito Agrícola. De acordo com a autora, a fazenda possuía cerca de 120 escravos que trabalhavam nas plantações, além de outros que se dedicavam aos trabalhos domésticos. Sob esse aspecto, ela descreve e analisa diversas situações ocorridas na fazenda entre o proprietário, seus capatazes e os escravos. Por diversas vezes, a viajante francesa não escondeu sua estranheza e indignação frente aos maus-tratos presenciados por ela, chegando ao ponto de fazer um pedido ao se despedir do amigo anfitrião: “Não bata mais em seus escravos!”. 

Mas os relatos dessa francesa não tratam apenas de escravos e castigos físicos. Ela também apresenta trechos bastante interessantes sobre as celebrações religiosas, as festas e “os batuques” na fazenda, com destaque para a culinária. “Sobre a mesa estavam expostos a feijoada tradicional, cestos cheios de farinha de mandioca, um grande prato de arroz cozido na água e duas galinhas, bem como bananas e laranjas. É sempre mais ou menos esse o jantar brasileiro no interior, onde a carne fresca é coisa rara. Havíamos trazido da cidade pão para dois ou três dias; depois disso, era preciso passar sem ele até o sábado seguinte, dia em que se enviava um negro a cavalo a um pequeno vilarejo chamado Santo Aleixo, que tinha um padeiro que se dignava assá-lo uma vez por semana”.

A autora também recorda de seus passeios nas redondezas da fazenda. Dois deles merecem destaque: sua visita a uma fiação de algodão que um norte-americano acabava de instalar na cidade, a Fábrica Santo Aleixo, primeira desse tipo a ser criada na Província do Rio de Janeiro; e a noite em que teve de pedir abrigo noutra fazenda, pois já havia escurecido. Na ocasião, acompanhada de seu marido e filhos, Adèle Toussaint-Samson hospedou-se na propriedade da Viscondessa de Praia Grande, também em Magé. Suas observações sobre a estada na fazenda são incríveis!

De fato, o livro é bastante instigante e revelador. Logicamente que é o olhar de um estrangeiro sobre o Brasil, o que pode “não ser agradável”, como próprio reconhece a autora. Para além desse aspecto, convém ressaltar que o relato apresentado no livro é do Século XIX, devidamente acompanhado de suas pompas e seus preconceitos. É o retrato que essa francesa imprimiu sobre uma época relativamente pouco documentada. De qualquer modo, o livro é uma preciosidade que deve ser lida e recomendada.

E para quem pensa que Adèle Toussaint-Samson (a francesa que visitou Magé) se arrependeu de viver no Brasil, a própria autora dá a resposta: “Adquiri a convicção de que, quando se viveu em um país banhado de sol, não se pode mais viver em outra parte (...). É isso que faz que eu sempre tenha saudade, como dizem os brasileiros, e que desejasse revê-lo mais uma vez antes de morrer”.