JORNAL MILENIO VIP

Histórias de Magé

A morte dos manguezais

Guia de Pacobaíba ou Mauá como todos chama, apesar do desprezo por parte das autoridades governamentais foi sempre palco de deslumbrantes paisagens; elevando-se em conta a grande várzea às margens do Rio Estrela com a sua abundante vegetação, que hoje acha-se em avançada devastação.

Temos ainda para além da Baía a altaneira Mata do Retiro última reserva florestal de Mauá prestes a desaparecer vítima do abuso de sues proprietários que a cada ano derrubam-lhe mais uma faixa diminuindo a extensão, ignorando sua beleza e utilidade.

Outra grande beleza de Mauá é sem sombra de dúvida, as suas praias, embora maltratadas e abandonadas, aqui estão elas com suas margens lamacentas servindo de berço a turistas e nativos. São Lourenço, São Francisco, Olaria, Anil, Imperador, Figueira Mauá, Coroa, Ipiranga, Vinha, etc., dez praias que banham o noso distrito, e que até pouco tempo eram sombreadas por grandes manguezais, que infelizmente estão às vésperas de sua lamentável extinção.

Em quase toda extenção dessas praias o manguezal cresceu abundantemente formando frondosa e magestosa mata, que já não mais existe! Há dez anos atrás nosso mangue era tão agreste, que até os veteranos daqui às vezes perdiam-se quando adentravam-se no mesmo a procura de caranguejos, naquela época abundantes e hoje em adiantada fase de extinção.

Chegou a degrabilidade que transformou a área em palco de impetuosa destrutividade! Transformando o manguezal em lenha para as indústrias de cerâmica e panificação. E foram cortando, cortando; um machadeiro, dois machadeiros, dez machadeiros e o manguezal indefeso foi caindo, caindo e cada vez mais foi crecendo a devastacão, que hoje resta em toda a região apenas uma ou outra lembrança tristemente despótica.

A densa floresta manguesânica era o magnaníssimo abrigo da grande fauna regional.

Encontravam-se ali centenas de garças que a brancura de suas plumas e penas, lembravam o arminho nas primaveras americanas. Grande número de socóis, algun gigantescos e que chamam-no de socó-boi. Muitíssimas saracuras que às cinco horas da manhã e às seis da tarde, cantavam seu gracioso ritual que se entende com apurada aboservacão, a seguinte sinfonia:-Siricóia três cocos, três cocos, foi, foi, foi, foi, foi, Saracura, quem foi? Quem foi? nós, nós, nós, nós, nós, nós.

Hoje, raramente ouvem-se elas cantarolando, estão fugindo para longe, estão abandonando-nos por causa da nossa falta de humanismo.

Outra espécie que era encontrada em grande número, eram os guachinins (mãos peladas) hoje quase em extinção. Por estas bandas, eles não acham o que comer!

Acabou-se os frutos nativos, acabou o mangue e as samambaias, o caranguejo está desaparecendo, a região caiu na miserabilidade e eles estão sumindo!

E o infeliz manguezal vê com tristeza a sua desventura. Os poucos que ainda estão de pé ouvem todos os dias o barulho do machado devorador, cada dia mais perto, mais perto e finalmente no seu tronco. Vem o lenhador, dá o primeiro golpe, o
Segundo, o terceiro e o infeliz mangue pede ao cicário:
-Não faça isso, tenha piedade, mas ele não atende. Por fim, já sem forças o pobre diz pezaroso-:
Não sejas assim tão malvado
Vai guardar esse machado
Diminui o seu sofrer!
E o lenhador insensível
à sua lamentacão
mete outra vez o machado
e joga o pobre no chão.
O mangue é o mais perfeito lixo biológico da natureza. Não o extermine!
Ipiranga, 3 de julho de 1986.

Benedito José da Silva