JORNAL MILENIO VIP

Histórias de Magé

José Rodrigues e a história de Magé

Durante as décadas de 1920 e 30, ponteava no município a Aliança Operária das Fábricas de Magé, com sede em Santo Aleixo. Fundada a partir de ideais anarquistas, a Aliança Operária paulatinamente passou a receber orientação comunista.

A atuação da Aliança Operária é bastante recorrente no depoimento do ex-operário comunista José Rodrigues, de 92 anos, atualmente empresário hoteleiro no centro de Magé. Tendo ingressado na Fábrica de Andorinhas em 1924, aos oito anos de idade, ele relembra os nomes de Ramiro Pinto, Agenor Araújo, Sebastião de Alcântara, Germano Narciso, Presentino Gotelipe e Silvério de Alcântara, operários sempre à frente da agremiação.

“Ingressei na Fábrica de Andorinhas aos 8 anos de idade, mas só tomei conhecimento ‘das lutas’ em 1928, quando nós, os ‘garotos da fiação’ fomos chamados pela Aliança Operária para falar sobre os maus tratos com as crianças na fábrica (...) Eram correiadas,castigos por qualquer motivo, além de recebermos apenas mil réis por dia, enquanto nossos pais recebiam 8 mil. (...) A nossa luta prática eram as greves, tendo como metas o aumento de salário, água potável, melhoria da matéria-prima, o algodão, e também o respeito ao horário de trabalho. (...) Reivindicávamos através de greves e comissões, compostas por operários com mais conhecimento, que eram cooptados e orientados pela Aliança. Eles iam negociar diretamente com os patrões, juntamente com o presidente [da Aliança Operária]. (...) Quando tinha muita encomenda pra fora, a fábrica cedia alguma coisa: pedíamos 30% do salário e ganhávamos 5 ou 10%”.

Em meados dos anos 30, a Aliança Operária se desfez, enquanto que em 1935 era fundado o Sindicato dos Trabalhadores das Indústrias de Fiação e Tecelagem do Distrito de Inhomirim, em Pau Grande.

Em 1939, é organizada em Santo Aleixo a Associação Profissional dos Trabalhadores nas Indústrias de Fiação e Tecelagem de Magé, Santo Aleixo e Andorinhas, filiada ao Sindicato de Pau Grande e tendo a frente o próprio José Rodrigues, agora já operário da Fábrica de Santo Aleixo, que logo cedeu sua casa como sede da associação. Esse seria o núcleo que, após concessão da Carta Sindical do Ministério do Trabalho, em 1941, deu origem ao Sindicato dos Trabalhadores das Indústrias de Fiação e Tecelagem de Santo Aleixo e Magé.

O primeiro presidente do Sindicato foi o operário Marciano Macedo de Freitas, sem qualquer ligação com PCB. Nas palavras do comunista José Rodrigues, ele era “um homem de confiança da fábrica”, mas ressalta:

“(...) Nós que entregamos a presidência ao Marciano, pois os comunistas não podiam. Foi uma medida política num período de ditadura [do Estado Novo], foi uma estratégia. Ele era chefe de almoxarifado e pessoa de confiança da fábrica, mas era’maneiroso’, boa pessoa. (...)”

O mais interessante no depoimento do operário José Rodrigues, que posteriormente tornou-se profissional do PCB, tanto em Magé quanto em Petrópolis, é a visão de continuidade das experiências políticas vivenciadas pelos trabalhadores têxteis locais.

“Santo Aleixo aceitava muito bem o Partido Comunista. Era uma tradição que vinha de longe, dos anarco-sindicalistas. (...) Na verdade, sempre existiu sindicato! Já existia, mas não era reconhecido. Pois considero a ‘Aliança’ como um sindicato. Ela depois se desfez, era um começo de luta...”.

O operário José Rodrigues, ainda que comunista convicto, faz questão de realçar experiências anarco-sindicalistas testemunhadas por ele ou herdadas através da memória operária.

Pouco após a fundação do Sindicato, José Rodrigues é preso por 12 dias, demitido da fábrica e “desterrado de Santo Aleixo”, como ele próprio define. Tudo isso ocorreu devido à elaboração de uma carta contra a diretoria da Fábrica de Santo Aleixo, de sua autoria, relatando diversas situações que provocavam a ira dos operários, inclusive a presença ostensiva de policiais dentro das seções.

Observa-se que José Rodrigues adquiriu uma certa liderança entre os trabalhadores santoaleixenses naquele período, tanto é que, após seu “exílio” em Petrópolis, os comunistas só passaram a atuar de forma mais efetiva após a chegada do médico Irun Sant’Anna a Magé, quando já despontava, ainda que discretamente, a atuação do operário Astério dos Santos.

Em Magé, o chamado “esforço de guerra” logo se fez sentir quando a Fábrica de Santo Aleixo aderiu à proposta governamental, comprometendo-se a fabricar o brim-marinho, tecido base para a confecção dos uniformes dos marinheiros brasileiros que iriam para o front. E justamente nesse contexto que o operário comunista José Rodrigues foi preso e “desterrado”.

“(...) Já havia passado dois meses do anúncio de que fábrica iria produzir o brim-marinho, a matéria-prima ainda não tinha chegado, mas a fábrica já tinha aumentado de um para três turnos, isenta de impostos, direitos trabalhistas e cumprimento de horário de trabalho... Era um blefe! (...) Daí convidei Ramiro Pinto e Antônio Bueno, que era escrivão no armazém de Manoel de Matos, para que datilografássemos uma carta, sem assinatura, por questões de segurança, contando tudo o que estava acontecendo: o caso do brim-marinho, os maus tratos e o policiamento dentro da fábrica. (...) Essa carta seria enviada para os jornais da Capital, para o ministro da Justiça, para o governador do Estado e para o prefeito (...) Todas seriam enviadas pelo correio, menos a do prefeito, pois Ramiro Pinto [ex-operário e membro da antiga Aliança Operária], na época era fiscal da prefeitura. Quando foi levar a carta, o prefeito não estava, então ele a entregou ao contínuo da prefeitura, que achou estranho, abriu a carta e entregou à polícia, dizendo quem havia entregue. (...) Fomos presos e quando voltei, depois de 12 dias, fui demitido e ‘desterrado’ de Santo Aleixo”.

José Rodrigues dirigiu-se então para Petrópolis, onde continuou atuando no movimento operário e tornou-se profissional do PCB, ao passo que, em Magé, despontava paulatinamente a liderança do médico Irun Sant’Anna, que chegou a Santo Aleixo por volta de 1944. Tendo organizado efetivamente o partido e reunido um relevante contingente de trabalhadores simpáticos ao movimento, os comunistas logo trataram de galgar novas conquistas, tendo atuado tanto no espaço sindical quanto no espaço político institucional, na Câmara Municipal de Magé.

Sua própria esposa, Ilza Gouvea tornou-se, em 1951, vereadora pelo Partido Trabalhista Nacional (PTN), ainda que sob orientação comunista, tendo em vista que o PCB havia sido cassado em 1947.

Em 1956, os comunistas conquistam pela primeira vez a direção do Sindicato de Santo Aleixo, com a eleição do operário Astério dos Santos. Freqüentemente identificado como um presidente “que lutava pelos direitos do trabalhador”, a administração Astério dos Santos tem como marca a construção da atual sede da entidade. Erguido no mesmo terreno onde estava localizada a antiga sede, o novo prédio representou uma importante conquista para os trabalhadores têxteis mageenses.

De acordo com José Rodrigues, a construção da nova sede iniciou-se em 1957, viabilizada a partir de recursos do imposto sindical, operários trabalhando sem remuneração, além do seu financiamento pessoal.

“Doei tábuas, cimento e consegui ajuda de alguns engenheiros amigos, dois pedreiros e o empréstimo de dois caminhões. Até mulheres pegavam areia do rio, quebravam pedra, nas horas de folga!”.

Em suma, José Rodrigues tem sua trajetória de vida marcada pela luta em favor dos trabalhadores mageenses, adquirindo considerável liderança política no município.

“Aquela época foi muito boa! Porque hoje nós temos um país que, você olhando assim pela História, retrata o valor das lutas do passado... Como podemos afirmar isso? Se não fosse nosso trabalho antigo, não teríamos hoje uma esquerda com força política, ainda que bombardeada pela direita, porque passando de pai para filho... de filho para neto, de neto para bisneto, uma influência positiva permanece, lutando por melhores condições de vida”.