JORNAL MILENIO VIP

Histórias de Magé

Mirindiba: A lenda de Magé

Trechos do livro: Magépe-Mirí: a lenda da cidade de Magé, de Wilson J. Pinto (Rio de Janeiro: Pallas, 1982. 2ªed.)

Esta lenda pertence ao primeiro volume da coleção As mais belas lendas brasileiras, também de autoria do jornalista e professor Wilson J. Pinto, escritor dedicado à pesquisa sobre o folclore indígena. Esse livro foi escrito a partir de informações recolhidas, em 1780, por Tesais Martins de Jesus, que visitou inúmeras regiões mageenses, e anotadas pelo autor em 1964.

“Pelo tempo da chegada dos lusitanos às terras do Brasil, por essa época, vivia nas imediações do Morro do Bonfim, conhecido pelo nome de Ibitíra, na localidade de Mulembá, hoje chamada de Figueira, um grupo de guerreiros Timbiras, do ramo etno-linguístico-jê que, naqueles tempos, dominava todas as regiões de Magépe-mirí e tivera forte influência da língua, costumes e cultura Tupi.
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No centro da tribo vivia o suave cantor Crenã com sua mulher Caxî e sua linda filha Mirindiba. A jovem era de uma formosura incomparável, tinha os cabelos longos e negros, dorso agradável, lábios vermelhos, seios bem formados e, fugindo ao comum das donzelas da tribo, seus olhos eram verdes e profundos.
Algumas vezes a moça caminhava pela margem do rio magépe-mirí cantando lindas canções de sua tribo, em homenagem ao Grande Rudá, deus do amor e da felicidade. Ela também gostava de cantar a bonita canção ‘Putarê iné icú puricí pá” cantada pelos velhos da tribo, e ali, junto ao rio ela contemplava a enigmática montanha onde está o belo ‘Dedo de Deus’ que se diz em Tupi ‘Poá-Tupã’, embelezando toda a região. O próprio Saci-Pererê, ocultando-se por entre as folhagens, gostava de ouvir Mirindiba cantar, suavemente em língua Tupi, tão harmoniosos cânticos.
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Os dois jovens Guatapí e Timbarába eram entusiasmados pela jovem Mirindiba e tudo faziam para conquistar o coração da donzela. Porém, a moça amava mais carinhosamente o jovem Guatapí. Os dois apaixonados participavam de muitos passeios, destas da tribo e quando estavam juntos trocavam juras de amor, sob a proteção do deus Rudá.
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Certa manhã, a donzela subiu ao morro para colher amoras silvestres. Enquanto Mirindiba tirava os deliciosos frutos e os colocava na pequena cesta de fibras para levá-los, a fim de que sua querida mãe pudesse também saboreá-los, sobre seu corpo, quase nu, a névoa da manhã arejava, os beija-flores dedilhavam os pesinhos nas pontas das pequeninas asas, as nuvens, por um momento diminuíam sua trajetória para olhar a linda filha de Crenã e Caxî, e os pássaros e borboletas multicores, com ternura de aragem, contemplavam em grande êxtase o corpo da formosa Timbira. Dos seios da virgem jorrava de modo extraordinário a essencial transmigração de seiva e de vigor. Era um genuíno poema eternizando o harmonioso e o encanto da vida!

Então, repentinamente, sem que a moça percebesse, uma cruel Jararacauaçú, picou-lhe o braço e o seio esquerdo e a virgem Mirindiba, mesmo ferida gravemente e sentindo que a luz fugia dos seus olhos assim lamentou: ‘Oh! Grande Rudá, nada mais quero saber de mim mesma. Agora sinto que para onde vou poderei ter sempre comigo a beleza de tudo o que vi e amei nesta terra’
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Fechando os olhos a linda virgem abandonou o corpo mortal e sua branca alma penetrou no reino dos imortais . Tupã ordenou ao poderoso espírito Guaiupiá que fosse até ali onde jazia a moça e metamorfoseasse seu corpo em uma árvore. Assim foi feito e a poderosa entidade transformou a virgem numa bela mirindiba para todo e sempre.

Desse modo maravilhoso nasceu em Magé esta primeira árvore que se espalhou depois por todo o Brasil. Quanto ao jovem Guatapí retirou-se para as nascentes do rio Magepé-mirí onde morreu de saudades da sua bem amada Mirindiba e seu corpo transformou-se em búzio. Dele vieram os milhares de búzios que se espalharam por todos os recantos e praias do litoral fluminense.
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Quando os brancos lusitanos conseguiram chegar naquele local, encontraram apenas alguns indígenas que ainda habitavam o lugar por eles chamado de Magépe-mirí. Depois, os Timbiras partiram de suas terras e subiram para o território mineiro indo viver nas cabeceiras do rio Muriaé.

Os brancos, tendo dominado toda a região, passaram a chamá-la de Magé e assim foi até os dias de hoje”