JORNAL MILENIO VIP

Histórias de Magé

Porto de Piedade

“Situado no fundo da vasta Bahia do Rio de Janeiro, na direção da Serra dos Órgãos, tem servido e continua a servir para a Villa de Magé: é o melhor e mais desembaraçado porto, o único que pela sua situação a beira-mar não se acha exposto aos pestiferos miasmas que infestão os lugares situados nos extensos pântanos entre o mar e a serra, maiasmas por cujos estragos já tantas famílias foram ceifadas e que tão triste recordações deixarão nas chamadas febres de Macacú. Com alguns trabalhos defácil execução, aos quaes em parte já se tem dado princípio, o porto podetá a qualquer hora do dia ou da noite receber um barco movido por vapor. Presentemente a comunicação diária com a Corte é feita por faluias, que pelo meio dia partem da praia dos Mineiros, chegão às 3 ou 4 horas na Piedade, e depois de pouca demora voltão outra vez a cidade. O porto é o ponto final da Estrada dos Leites para a Sapucaia, pela qual muitas tropas descem das fazendas da Parahiba, confins da Província do Rio de Janeiro, e mesmo do centro da de Minas Geraes.

O Porto de Piedade é bem conhecido por todos que frequentão a Serra dos Órgãos, a fazenda do defunto George March, o Hunttton-Hall, e a do excellente Ricardo Heath, que só com os seus magníficos morangos attrahe tantas senhoras da cidade.

No Porto de Piedade há um grande estabelecimento comercial, que gyra com a firma de Salles Castro e Cª; nelle existe um grande armazém de sal e todos os mais gêneros de consumo, com que voltão carregadas as tropas, que para ele conduzem café, toucinho, fumo, & c. Existe também um hotel, pertencente ao mesmo estabelecimento, com todos os cômodos e sempre bem provido de todo o necessário, e até de animaes de aluguel.

Da Villa de Magé vem muitas vezes gôndolas, tilburys, & c., para conduzir até ao pé da serra aquelas pessoas que não gostão de viajar muito a cavalo.

Brevemente serão todos obrigados a confessar que o Porto de Piedade é da maior importância, não só pela sua posição geográfica, como pela salubridade de seu clima, e tão persuadidos estão os seus proprietários, que não olvidarão seus esforços para o seu maior desenvilvimento em benefício do público, tanto que já se acha contractada a factura de uma barca de vapor para a sua carreira”

Fonte: LAEMMERT, Eduardo. Almanak Administrativo, Mercantil e Industrial do Rio de Janeiro. Rio de Janeiro: 1850, p.122

Canal de Magé e Porto de Piedade

“O Canal de Magé é uma obra de extraordinária utilidade para o comércio e salubridade desta Vila: ele está quase ultimado, e já dá franca navegação para lauias, barcos e lanchas, que entram e saem com um pouco de maré, carregadas de sal ou com diversos gêneros inclusive cargas de 500 sacas com café: para o fim do presente ano de 1850 estará concluído, e se conseguir do governo uma pequena escavação nos baixos com fundo de lama e sem coroas, será o primeiro canal dos que até agora existem no Império; ele é alimentado exclusivamente por água do mar, e nas maiores vasantes conserva 2 ½ palmos d’água, sendo a sua largura de 64 palmos: termina a sua bacia na Vila em distância do rio de 40 palmos, o que é de grande utilidade, e para o futuro será ainda de mais consideração, porque o dito rio é o melhor e mais abundante de aguada que fica da barra para dentro na grande Baía do Rio de Janeiro; a bondade das águas consiste em serem livres, muito limpas, com algum tanto de ferro, e em se conservar sem corromper-se por anos melhorando sempre de qualidade.

Este canal não é somente útil aos moradores da Vila, mas também aos lavradores de serra abaixo e mineiros, porque, além de maior comodidade para os embarques, lhes dá a vantagem que desgraçadamente não tinham na Piedade, e de excelente aguada e pastos para os animais.
(...)

O Porto de Piedade, situado à beira mar na extremidade de Serra dos Órgãos, dista da Vila de Magé pouco mais de meia légua, é o melhor dos portos da Bahia do Rio de Janeiro pela facilidade do embarque, tem um grande estabelecimento comercial, que gira com a firma de Luiz Moritz John, constando de lojas de fazendas, ferragens e objetos de armarinho, armazém de molhados e louças, armazéns para café e cargas para o interior, um grande depósito de sal, uma casa de pasto com todos os cômodos, animais de aluguel e cocheira para 20 ou 30 animais. Tem uma magnífica barca de vapor de força de 20 cavalos, que conduz, além dos passageiros e animais, 2.000 arrobas de cargas, partindo deste porto para a corte às 3 horas da tarde de todas as segundas, quartas e sextas-feiras, e voltando nas terças, quintas e sábados da praia dos Mineiros ao meio-dia; gasta apenas 2 ½ horas de viagem, tocando em Paquetá. Há também além da barca três faluias empregadas no serviço do mesmo porto”.

Fonte: LAEMMERT, Eduardo. Almanak Administrativo, Mercantil e Industrial do Rio de Janeiro. Rio de Janeiro: 1851, pp.105-106

PORTO DE PIEDADE – 1853
PREÇO DAS PASSAGENS NA BARCA À VAPOR PASSANDO POR PAQUETÁ
Da corte para Piedade e vice-versa
Pessoa livre 1$500
Escravo 1$000

Da corte para Paquetá e vice-versa
Pessoa livre - 1$000
Escravo - $500

“Há também, além da barca, três faluas empregadas no serviço do porto. O proprietário, atendendo a progressiva concorrência que tem havido de passageiros, que espera mais aumentará logo que esteja concluída a ponte de arame, na Sapucaia, que ora se acha em bom andamento, pretende fazer construir outra barca para estabelecer a carreira diária do porto por vapores”.

Fonte: LAEMMERT, Eduardo. Almanak Administrativo, Mercantil e Industrial do Rio de Janeiro. Rio de Janeiro: 1853, p.140.