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Histórias de Magé

A Festa Mais confusa do Município

Desde o ano passado, a festa do Dia de Magé tem causado muita polêmica e confusão. Acostumado a comemorar as festividades da cidade no dia 2 de outubro e exaltar o nome de Simão da Motta como seu fundador, o povo mageense foi obrigado, de ‘uma hora para outra’, a transportar tudo isso para o dia 9 de junho. E o que é mais estranho: substituir o nome de Simão da Motta por Cristóvão de Barros. Confuso, não? É por isso que o Informativo Colégio 1º de Maio elaborou esta super reportagem, para você tirar, de uma vez por todas, as suas dúvidas e conclusões.

O contexto histórico

Em 1555, os franceses começam a invadir o Rio de Janeiro. Buscando fixar-se e formar uma colônia, os invasores procuraram ganhar apoio dos nativos. (...)

Porém, em 1558, chegou Mem de Sá, terceiro governador-geral, que, substituindo Duarte da Costa, buscou restabelecer o completo domínio luso na colônia. O novo governador organizou missões em aldeias indígenas dirigidas por missionários jesuítas (...). Graças à atuação dos jesuítas José de Anchieta e Manoel da Nóbrega, conseguiu-se que os índios tamoios desfizessem seu acordo com os franceses e não entrassem em luta com os portugueses.

Em 1565, o sobrinho do governador-geral, Estácio de Sá, fundou a cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro. A partir de então, deu-se início a colonização portuguesa nas proximidades da Baía de Guanabara, sendo doadas várias sesmarias (concessão real de terras).

Este fato de doação de terras trouxe para Magé a grande dúvida de quem seria o seu fundador e iniciador. A controvérsia paira em torno de Simão da Motta e Cristóvão de Barros.

A história antiga

De acordo com o livro ‘Magé: Terra do Dedo de Deus’ (1957), do professor Renato Peixoto dos Santos, Simão da Motta foi agraciado com uma sesmaria em 7 de setembro de 1565, no rio Magepe. O português chegou às praias de Piedade acompanhado de pequeno séqüito, composto de parentes, alguns amigos e vários escravos africanos.

Simão da Motta escolheu para local de sua moradia o morro de Piedade. Dias mais tarde, começaria o trabalho de cuidar de suas terras não muito distantes da atual sede do município. Levado por seu espírito aventureiro, mudou-se para um lugar chamado ‘Magepemirim’, que quer dizer ‘Cacique Pequeno’, onde se deu origem à cidade de Magé.

Diz a história que Simão da Motta encontrou dificuldades em permanecer na região, pois a mesma era habitada por um atribo dos Timbiras, índios tupis que, segundo se deduz, foram dizimados (...).

Ainda em 1565, havia feito construir Simão da Motta uma capela sob o orago de Nossa Senhora da Piedade, sendo convertida em igreja com as honras de matriz e mais tarde reconstruída.

Porém, em 1988, ao escrever o livro ‘A saga dos Ullmann”, o professor Renato Peixoto dos Santos já apoiava a idéia de que Cristóvão de Barros foi o fundador de Magé. Pretendia até lançar um novo livro explicando tudo, mas acabou falecendo antes que isso acontecesse.

A história atual


Segundo o pesquisador argentino Dario Navarro, presidente do Instituto Histórico de Magé, no sistema de doações de sesmarias muitos foram os agraciados e poucos tomaram posse. Ele afirma que o português Cristóvão de Barros tomou posse de uma sesmaria recebida em 12 de outubro de 1566, construindo, às margens do rio Magepe, um engenho de cana-de-açúcar (...), sendo este o fundador e mantenedor da integridade do núcleo populacional de Magé. O engenho ficava próximo ao morro da Piedade, onde os jesuítas, certamente, deram início a construção de uma capela, que transformou-se na famosa Igreja de Nossa Senhora da Piedade.

Hoje, inexplicavelmente, o pesquisador argentino não vive mais no município. Ele praticamente desapareceu da cidade, sem que ninguém tivesse notícias ao seu respeito.

Outra grande polêmica existente é em relação ao dia do município. Alguns estudiosos defendem o dia 9 de junho, já outros o dia 2 de outubro.

A partir de 1567, com a expulsão definitiva dos franceses, Magé começou a crescer. A cidade era grande celeiro agrícola, possuía portos de renome mundial, sua economia tornou-se importantíssima para o país. A Corte estava deslumbrada!

Como conseqüência disso, em 9 de junho de 1789, Magé foi elevada a categoria de Vila (povoamentos em terras particulares). Sendo alçada ao Baronato em 1810 e Viscondado em 1811, a Vila de Magé tornou-se Cidade (povoamentos em terras da Coroa), em 2 de outubro de 1857. Por isso é que existe a confusão! É que alguns historiadores consideram que o momento mais importante de um lugar era quando ele se tornava Vila, enquanto outros defendem a idéia de que era quando se tornava Cidade.

Porém, a Câmara Municipal de Magé, que é quem decide esse tipo de discussão, aprova a idéia de que o Dia de Magé deve ser comemorado no dia 9 de junho. Antigamente, este era o dia da cidade. E esta data foi celebrada por muitos anos. Mas em 22 de maio de 1962, o município passou a considerar o dia 2 de outubro como Dia de Magé, comemorando esta data por 35 anos. Foi aí que em 16 de outubro de 1997, a Câmara Municipal de Magé aprovou o projeto de lei que voltou a considerar o dia 9 de junho, além de exaltar o nome de Cristóvão de Barros como seu novo fundador, pois até então o nome de Simão da Motta era indiscutível. Entretanto, o mais curioso disso tudo é que esta lei foi aprovada quase dois anos e mesmo assim o brasão do município continua com a inscrição do ano de 1857, que devido a decisão da Câmara já deveria estar com a inscrição do ano de 1789. Tudo isso fora o nome de Simão da Motta na avenida mais importante da cidade, que (...) deveria se chamar Cristóvão de Barros.

Mas nessa confusão toda, é preciso esclarecer que tanto no dia 2 de outubro quanto no 9 de junho não se festeja a fundação da cidade, mas sim a data de sua emancipação político-administrativa”.

Fonte: RIBEIRO, Felipe Augusto dos Santos. Informativo Colégio 1º de Maio: o jornal da comunidade. Ano3, n.22, junho de 1999. p.5.