JORNAL MILENIO VIP

Histórias de Magé

Breve História de Santo Aleixo, um Distrito Operário

Situado ao sopé da Serra dos Órgãos, o distrito de Santo Aleixo atualmente é formado pelos bairros de Andorinhas, Batatal, Britador, Cachoeirinha, Capela, Cascata, Cavado, Chalé, Centro, Gandé, Pau-a-pique, Pico, Poço Escuro, Guarany e Vila Operária, e conta com cerca de 35 mil habitantes.

O desbravamento dessa região remonta ao século XVII, com a chegada dos primeiros colonizadores, que encontraram em suas terras um bom solo para a lavoura, água em abundância e um clima bastante agradável. Entretanto foi no século seguinte, a partir de 1743, quando José dos Santos Martins construiu uma capela dedicada ao santo Aleixo em sua fazenda, que surge o povoado homônimo.

Região originalmente agrícola, tendo sua população basicamente formada por lavradores, produtores de farinha de mandioca e café, Santo Aleixo passou por significativas transformações a partir de meados do século do XIX, quando ali foram instaladas duas fábricas de tecidos, atraídas principalmente pelo grande potencial hidráulico do povoado, banhado por diversos rios.

Em 28 de maio de 1892, o povoado de Santo Aleixo foi elevado à categoria de segundo distrito de Magé, através de decretos estaduais que desanexaram parte do território que anteriormente pertencia a Freguesia de Nossa Senhora da Piedade.

Na viragem do oitocentos para o novecentos, Santo Aleixo foi consolidando-se lenta e progressivamente como uma região importante na produção têxtil, ao passo que seus próprios habitantes também começam a se identificar como operários.

Nas décadas de 1930 e 40, respectivamente, os empresários Hermann Mattheis e Othon Lynch Bezerra de Mello adquiriram as fábricas Andorinhas e Santo Aleixo. Dotados de larga visão industrial, os novos proprietários desenvolveram projetos voltados não apenas para suas empresas como também para a localidade circunvizinha: expandiram e otimizaram a geração hidroelétrica, para que assim atendesse com energia e água os habitantes, construíram vilas operárias para os trabalhadores, escolas, igrejas, ruas, praças, centros médicos, creches, cinemas, além de patrocinar grupos carnavalescos e clubes de futebol.

Entretanto, ao passo que Santo Aleixo atraia empreendedores industrias, a localidade também reunia diversos movimentos organizados que buscavam inflamar os operários contra as arbitrariedades do patronato.

Em 1918, motivados sobretudo por uma greve geral no Rio de Janeiro e bastante influenciados pela Revolução Russa ocorrida no ano anterior, os operários santoaleixenses desencadearam a chamada “Greve do Pano”, iniciada num sinal convencionado para que todos parassem de trabalhar e carregassem para casa cortes de tecidos. Muitos que não concordavam com a greve procuravam dar fim aos tecidos, queimando-os ou deixando-os no portão das fábricas, ao anoitecer. Casos de depredações, dinamitamento e saques também foram registrados por ocasião do movimento, que logo também fora reprimido pelas forças policiais, ocorrendo inclusive prisões de alguns trabalhadores grevistas.

Em 1941, é fundado o Sindicato dos Trabalhadores das Indústrias de Fiação e Tecelagem de Santo Aleixo e Magé, com sede em Santo Aleixo. Inserido inicialmente num contexto de forte enquadramento sindical promovido pelo Estado Novo, o Sindicato tornou-se paulatinamente um importante instrumento de reivindicação e conquista do operariado santoaleixense.

Também na década de 40, a presença do médico sanitarista Irun Sant’Anna em Magé, em virtude da epidemia de malária que assolava o município, contribuiu sobremaneira para a formação política dos operários têxteis daquela região. Filiado ao Partido Comunista Brasileiro (PCB) desde 1935, Dr. Irun Sant’Anna buscou aproximar o partido ao movimento operário local, dando assistência política aos militantes.

Das reuniões do PCB na clandestinidade surgiu uma geração de trabalhadores que articulou, na década de 50, uma aproximação com o movimento sindical no afã de conquistar espaço político na instituição. Em 1956, esse grupo lança a candidatura do operário Astério dos Santos à presidência do Sindicato, sagrando-se vencedor.

Nas eleições municipais de 1958, o mesmo Astério dos Santos candidata-se e elege-se vereador pelo Partido Socialista Brasileiro (PSB). Em 1962, reelege-se na Câmara de Vereadores, o mesmo acontecendo nas eleições sindicais.

Nesse contexto, a trajetória política de Astério dos Santos, acumulando as funções de dirigente sindical e vereador, tornou-se bastante significativa, considerada como o auge do movimento operário santoaleixense. Cassado e preso pelo governo militar instaurado em 1964, sua atuação é respeitada até hoje, e não apenas por seus pares, como a de um legítimo representante operário, defensor das causas atinentes aos trabalhadores têxteis daquela localidade, que chegou a ser conhecida pelo cognome “Moscouzinho de Magé”.