JORNAL MILENIO VIP

Histórias de Magé

150 anos depois, a 1ª ferrovia do Brasil ainda aguarda restauração. - Parte I

Ao passarmos pela Rodovia Rio-Teresópolis (BR-116), na altura da entrada de Piabetá, no município de Magé, no Estado do Rio de Janeiro, vemos uma placa da Associação Brasileira de Preservação Ferroviária (ABPF), no acostamento, com os seguintes dizeres: “Você está cruzando a primeira ferrovia do Brasil- E. F. Mauá“.

Ocorre que não existe mais um único trilho no asfalto que lembre esta estrada de ferro pioneira, já que o Consórcio Rio- Teresópolis ( CRT ), empresa que explora o pedágio da citada via, não conservou a passagem de nível ali existente antes da sua privatização, em que pese tal trecho ser protegido por um tombamento federal, o que retrata o descaso com este importante bem cultural brasileiro.

Em 1995, ano do 141 ° aniversário desta ferrovia, quando éramos promotor de Justiça e curador do meio ambiente, do patrimônio comunitário e do consumidor da comarca de Magé e Guapimirim, após assistirmos uma reportagem do Jornal “RJTV“, da TV Globo, sobre o abandono da primeira ferrovia do Brasil, instauramos o inquérito civil n.O 07/95 para apurar o caso e nos deparamos com uma bela e, ao mesmo tempo, triste história.

Consta do inquérito civil do Ministério Público do Estado do Rio de Janeiro que a primeira linha férrea do Brasil e a 3a da América do Sul, ligando Mauá, na praia da Estrela, no fundo da baía de Guanabara, ao lugarejo de Fragoso, na vila Inhomirim(hoje distritos do municipio de Magé), num trecho de 14,5Km de extensão, foi concebida por lrineu Evangelista de Souza (1813-1889) e inaugurada em 30 de abril de 1854, dia em que o empresário recebeu do imperador Dom Pedro II o título de barão de Mauá, sendo mais tarde elevado a visconde.

Esta ferrovia passou a ser usada por dom Pedra 11, nas suas viagens a Petrópolis, onde passava o verão no Palácio Imperial (atual Museu), vindo da praça Mauá de barca, por mar, até um cais de ferro, construído no porto de Mauá, junto à primeira estação ferroviária. Os trens circularam por ela até o ano de 1964, quando foi desativada pelo Governo Federal.

Um sonho antigo é a reativação desta primeira linha férrea do Brasil, através de projetos como o Projeto de Restauração da Estação de Guia de Pacobaíba da RFFSA, elaborado pelo arquiteto Sérgio Santos Morais, da sua gerência de Preservação do Patrimônio Histórico Ferroviário - PRESERFE, incluindo a urbanização da área do entorno do conjunto histórico do cais, da estação, da caixa dágua e da casa do agente, proposto em 1991 e aprovado, com algumas alterações, em 1992, pelo então Instituto Brasileirq do Patrimônio Cultural - IBPC, através da Informação n.O 90/92, retomado, mais tarde, pela Associação de Engenheiros Ferroviários (AENFER).

A citada ABPF, fundada em 1977, em São Paulo, também elaborou um projeto denominado “Reativação da Estrada de Ferro Mauá“, aprovado, em 1994, pelo Ministého da Cultura e pela Secretaria Estadual de Cultura, para captação de recursos, com base nas leis federal e estadual de incentivo à cultura, bem como, foi elaborado outro projeto, em 1986, chamado “Venha a Petrópolis como vinha o imperador“, por Alda Neves, Joel Carlos Tavares de Almeida e Tânia Guimarães amena, com a participação da Rede Ferroviária Federal SI A e da Cia. Brasileira de Trens Urbanos (CBTU), tendo como novidades um trecho marítimo, correspondente à travessia de barca da Companhia de Navegação do Estado do Rio de Janeiro, da praça Quinze, no centro do Rio de Janeiro, até o antigo cais junto à estação de Guia Pacobaíba, no fundo da baía, e outro rodoviário, de ônibus, de Raiz da Serra até Petrópolis.

O citado inquérito do Ministério Público Estadual conta a história do abandono e do sonho de reativação da primeira ferrovia do Brasil, que recebeu o nome de Estrada de Ferro de Petrópolis e depois de Estrada de Ferro Mauá, em homenagem ao seu idealizador.

Essa história começou com o decreto imperial n.O 987, de 12 de junho de 1852, pelo qual o futuro barão de Mauá ganhou o privilégio de exploração, por 10 anos, de uma linha de navegação a vapor pela baía de Guanabara, do porto da Prainha (hoje praça Mauá), ponto de partida dos barcos fabricados no seu estaleiro da Ponta da Areia (em Niterói), até Mauá, uma praia da desaparecida vila da Estrela (hoje território de Magé) e de uma estrada de ferro deste ponto até o rio São Francisco, na província de Minas Gerais, passando por Petrópolis.