JORNAL MILENIO VIP

Histórias de Magé

Escrito em 1704 por Frei Agostinho.

Título XVIII Da milagrosa Imagem de nossa Senhora da Piedade, ou do Monte da Piedade Do sítio do Santuário de nossa Senhora da Luz para diante até o Santuário de nossa Senhora da Piedade vão... léguas; mas não são praias de areia, senão uns continuados lamaçais, cheios de mangues, que são umas árvores que lançam uns ramos muito altos e compridos, de que se valem os navegantes para lenha, e desses também vem muitos a Lisboa , que servem de varas para as parreiras, e para outros ministérios; porque duram muito , e são muito diretos. Por estes lamaçais se criam muitos caranguejos, ostras e outros mariscos diversos, e muito excelentes; e aqui desembocam também vários rios navegáveis, pelos quais se navega para os bairros dos seus distritos. E nas bocas destes rios se criam camarões os mais regalados, que tem todo o Mundo, e são tão grandes em seu templo, como lagostas; porque um deles dá uma pitanga para um Frade jantar muito bem, e não tem com eles comparação num prato dos gabados camarões de Vila Franca de Xira. Passado o último boqueirão destes, em que desembocam os rios, que é o de Magé, se vê o devotíssimo Santuário, e Monte da Piedade, cuja Igreja só vista de longe da alegria e causa devoção a todos os que navegam por aquele largo seio de mar de oito léguas de comprido; porque domina a maior parte dele. Este Santuário fundou o Sargento mór João de Autas, o qual não deixou descendentes, mas deu aquela terra e o contorno dela à Senhora, que terão com braços, ou mais de mil palmos para a fábrica daquela sua fundação. Passou depois (com o consentimento do Padroeiro) esta Casa da Senhora a ter Capela curadora daquele bairro, e hoje é esta Casa Paróquia com Vigario pagem por ElRey, e tem algumas Confrarias formadas pelos fregueses, os quais celebram as “festas” dos títulos, e Santos das suas confrarias.

É esta Santíssima Imagem de pouco mais de dois palmos e meio na forma, em que se vê com o Santíssimo Filho Autor de nossa vida defunto em seus braços, e não lhe põe outro ornato mais que um mato de seda roxa, e resplendor de prata. Esta Sagrada Imagem, como substituta da Virgem Maria é muito milagrosa; e com as suas maravilhas se fez tão celebrada por toda aquela Capitania, que não só é visitada de um grande concurio dos moradores da Cidade de S. Sebastião do Rio de Janeiro; mas de todos os moradores das outras povoações circunvizinhas, os quais freqüentam continuamente este Santuário da Senhora em todo o ano com muitas romarias, e novenas, e isto sem que lhes seja embaraço o trabalho da viagem de sete léguas de mar, ou mais, que dista este Santuário da Cidade, ali lhe vão oferecer as suas promessas; pagar os seus votos, e dar as suas esmolas. As maravilhas que obra continuamente, não tem número: porquê todos em seus trabalhos, enfermidades, e tribulações, invocando a Senhora da Piedade, logo conseguem quanto dela pretendem. Diz o reverendíssimo Provincial o Padre Frei Miguel de São Francisco, que poucas são as mulheres, que morrem naquela terra, e distrito do Rio de Janeiro, que ao morrer senão achem devedoras de romarias e de novenas, que prometeram, pedindo aos seus parentes as vão satisfazer por elas em satisfação de favores e mercês, que da Senhora alcançaram.

E assim as deixam em seus testamentos, para que lhas cumpram. Muitos destes milagres se podiam referir em particular; mas como são muitos os que a Senhora obra, não os escrevem, nem nunca houve curiosidade para o fazer; que tal é a negligência, e a incúria daquela gente. Um prodigioso e galante milagre refere o mesmo Padre Frei Miguel de São Francisco, em que ele é muito abonada testemunha, é digno de fazermos memória dele, e foi desta maneira, como ele refere. Diz que indo algumas vezes a casa de uma irmã casada ( e verdadeira filha de seus virtuosos pais) o tomará por padrinho, e medianeiro um escravo, que havia sido de seu pai, o qual se chamava Sebastião, para que seus senhores lhe dessem licença para ir com sua mulher a nossa Senhora da Piedade a fazer-lhe uma romaria, e a varrer-lhe a sua Igreja, para que lhe abriga sua mulher, (esta era a frase própria, com que aquele escravo falava na sua petição de licença) para ir satisfazer a sua devoção à Senhora da Piedade, na qual perseverou muitos dias.

E havendo vinte e três anos, que era casado com uma moça sem nunca ter filhos, e sendo já a mulher de bastante idade; causa porquê sua petição lhe servia ao Padre Frey Miguel de riso, e a seus senhores. mas como perseverava nela, e o Padre sabia as grandes maravilhas que a Senhora obrava, fez que se desse ao Preto a licença que pedia. Foi o Preto Sebastião com efeito com a pretinha sua mulher visitar a Senhora da Piedade, e varrer-lhe a sua igreja e recolhendo-se a sua casa, em termo de um ano lhe pariu a mulher não só aquela vez, senão outras, e diz que ainda ao presente neste ano de 1713 era vivo um crioulo de nove anos do segundo , ou terceiro parto. Que assim despacha a Senhora da Piedade as petições, que com viva fé lhe fazem; porquê a ninguém exclue esta predosíssima Senhora dos meus favores, e benefícios. Esta Santíssima Imagem mandou fazer o mesmo Sargento mór João de Autas a um escultor curioso e morador no Rio de Janeiro, chamado Sebastião Toscano imaginário mais de curiosidade, e gênio do que de arte; mas saiu a obra com tanta perfeição, que podemos entender também concorreu para, aquela manufatura a graça do Divino Espírito. É esta Santa Imagem muito linda, e muito devota.

Fazem-lhe grandes festas no mês de Agosto, e neste tempo é tão grande o concurso da gente, que não cabe na Igreja. Tem esta Senhora grandes casas de “romagem” e ainda não bastam para a multidão da gente, que concorre; e assim se acomodam pelas casas dos moradores vizinhos e muitos no tempo das festas, e da Semana Santa, em que também é grande o concurso, se albergam em barracas, e em cabanas de palha que para isso fabricam. Vêem-se as paredes daquele Santuário da Senhora coberta dos sinais, e memória dos milagres,e maravilhas, que continuamente está obrando: ali se vêem muitos quadros, muitas mortalhas, e outras muitas coisas deste gênero; e todas estão publicando em como aquela Senhora é verdadeiramente Mãe e Mãe de Piedade, Mãe de Misericórdia. Da Senhora do Monte da Piedade faz menção na sua relação o Padre frei Miguel de S. Francisco.