JORNAL MILENIO VIP

Histórias de Magé

Relato do pintor Rugendas sobre o Porto Estrela em Magé no século XIX.

Relato de Vila Estrela escrito pelo pintor Rugendas em 1824: “ Na vizinhança do Rio, a primeira aldeia de alguma importância é do Porto da Estrela, à margem do Inhomirim que se joga na Baía do Rio.

As mercadorias destinadas às províncias do interior de Minas Gerais, Minas Novas, Goiás, etc., são primeiramente conduzidas, da mesma forma que os viajantes, em pequenas embarcações, do Rio ao Porto da Estrela, afastado de sete léguas.

Aí são elas enfiadas a tropas de mulas que, por seu lado, trazem, de volta, carga para os navios no Rio de Janeiro. Nesse sentido, existe curiosa analogia entre o comércio do Porto da Estrela com o Rio de Janeiro, e o de Aldeia Galega com Lisboa. Sabe-se que Aldeia Galega se encontra no fundo da baía de Lisboa e que todas as mercadorias e viajantes, vindo de além-Tejo e da Espanha, chegam também a dorso de mula para serem carregados em pequenos navios e levados para Lisboa através da baía, ou vise-versa.

Essa analogia de situação entre a antiga capital da metrópole e a nova capital das colônias, essa semelhança que se verifica ainda em muitos pontos, deve ter impressionado fortemente os primeiros portugueses que aqui se estabeleceram.

A estrada que vai de Porto da Estrela e Minas passa diante de belas plantações, atrás das quais se percebem, ao longe, as pontas angulosas da Serra dos Órgãos, erguendo-se por cima da Serra das Estrela cujas escapas constituem o espantalho dos tropeiros e o tormento das mulas, embora uma estrada larga, constituída e pavimentada com grande sacrifício, aí tenha sido aberta. Em mais de um lugar ela se assemelha mesmo a uma imensa muralha de dez pés de largo. Diante dessa situação não é de espantar que Porto da Estrela seja a um tempo muito animado e muito industrial.

Os estrangeiros e principalmente os pintores devem visitá-lo; mesmo se não estiver em seu caminho. É u lugar de reunião para os homens de todas as províncias do interior; aí se encontra gente de todas as posições sociais e podem-se observar suas vestimentas originais e sua atividade barulhenta. Aí se organizam as caravanas que partem para o interior e somente aí o europeu depara com os verdadeiros costumes do Brasil; aí deve ele despedir-se, não raro por muito tempo, de todas as facilidades e comodidades da vida européia e de todos os seus preconceitos (...).”