JORNAL MILÊNIO VIP - Chuva de eterna brevidade

Colunistas - Ant√īnio La√©rt

Chuva de eterna brevidade

Publicado na edição 167 de Maio de 2019

 “Surpreender-se, estranhar, é começar a entender. Olhar o mundo com os olhos dilatados pela estranheza. Tudo no mundo é estranho e é maravilhoso para um par de pupilas bem dilatadas”. 

        Ortega y Gasset (1883–1955) 


Antes, eu adorava a chuva. Já até escrevi sobre esse encantamento aqui. Agora, tenho medo. Estranha sensação. Será que fui contaminado pelo  senso  melódico,  tristonho, quase  melancólico dessas águas ? Será que essa chuva não cabe  mais  nos  meus  olhos? Minha alegria teria se transformado em tristeza? Evolui, involuí, fiquei na  mesma ou de fato  alguma  coisa  mudou.  Claro que muita coisa mudou, desde  quando cantava  loas à chuva. Estou mais velho. Hoje já vi muito  mais  coisas. O tempo muda  o  ângulo  com  que  se  percebe  as  coisas. Antes, as consequências da  chuva  eram  quase  inexistentes. Hoje, têm sido devastadoras. As cidades não estão preparadas para  a chuva e esta  sempre  surpreende.  Ceifa vidas, destrói construções, leva tudo que foi  amealhado  pelo  esforço  das  pessoas. Será que não existe mais poesia em meu olhar ? A distopia ocupou todo o espaço da utopia e fiquei aqui, a rés do chão? Vivemos tempos difíceis, de mudanças, inseguranças, colapso das certezas e a chuva, puro líquido, nesse mundo líquido, tem  ajudado a complicar tudo, deixando nossas almas úmidas, molhadas, encharcadas,  assustadas. Dizem que a chuva será cada vez mais  volumosa e  devastadora e  de  efeito imprevisível. Tal como o mundo em que estamos, ela  poderá  levar  muita coisa. O homem flutuante talvez seja  cada  vez  mais  a  imagem  desse  tempo.  Uma pessoa que por longo tempo tenta resistir à força das águas, agarrando-se a tudo o que é possível se agarrar, uma pedra, um galho de árvore, o mato que cresce na margem. Mas se vê chegado ao ponto em que não tem mais força física e psíquica para se agarrar a algo, para fazer esse esforço, se convencendo de que esse esforço é inútil e não o salvará da correnteza. Também porque, para se opor à correnteza que o arrastou se agarrou a apoios frágeis - antes, a pedra, depois o galho, depois o mato ribeirinho - e por isso sentiu que a certeza que o sustentava se tornou objetivamente cada vez mais frágil. A força da correnteza que o arrasta, junto com a fragilidade do ponto de apoio no qual procurou salvação, enfraqueceram cada vez mais a convicção com que se agarrava a qualquer coisa para se salvar. O resultado é que a pessoa crê não ter mais outra escolha, a não ser aquela de entregar-se à correnteza, de se deixar arrastar não sabe para onde. A única realidade parece ser a força irresistível da correnteza. Sorte nossa, é que a vida é um sonho  que só termina quando a gente  acorda. Que saibamos em meio a tantos medos, flutuar na superfície, subindo e descendo, mergulhando e submergindo,  indo e  voltando. Assim, a  chuva pode continuar a cair  sobre meu  quintal.

Ant√īnio La√©rt
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