JORNAL MILÊNIO VIP - O tempo da tomada da palavra

Colunistas - Antônio Laért

O tempo da tomada da palavra

Publicado na edição 165 de Agosto de 2018

“Esta é a madrugada que eu esperava, o dia  inicial inteiro e limpo, onde emergimos da  noite e do silêncio, e livres habitamos a  substância  do  tempo”.

Sophia de Mello Breyner Andresen (1919-2004)
             


Vivo em busca da palavra  perfeita. A palavra é adivinhação e adivinhar, é averiguar o divino. A palavra é a alma outorgada aos  homens para que  tenham  consciência  da divindade. De repente vi uma palavra montar e desmontar, dançar e mostrar-me suas  partes, como se viesse  de  outra  realidade; a  da  sua  própria  criação. Há palavras que escorrem pela pia do  banheiro; outras  ficam retidas para  sempre. Há um big bang dentro de cada palavra. Se pode fazer as palavras significarem tantas coisas diferentes, a palavra está viva e seu  ser  arraiga-se  na  metáfora que a anima. Existem palavras que quando experimentadas revive-se a infância. Mentira, tira a mente; ver dade, dar a ver. As palavras sentem amor uma à outra, um desejo que culmina na poesia. Ou a palavra, ela mesma, é poesia, poema mínimo ou essencial. A palavra pode  vencer  a  força  bruta. Gosto de ouvir o português do Brasil, onde as palavras recuperam a sua  substância total, concreta, ouvir a palavra com suas sílabas  todas, sem perder sequer um quinto de vogal. Cultivar uma escrita despojada de ornamentos. Fazer uso da faca que corta os excessos. É preciso saber que a palavra é sagrada, que de longe, muito longe um povo a trouxe e nela pôs sua alma confiada. O homem soube de si pela palavra e nomeou a pedra, a flor, a água e tudo emergiu porque ele disse. Chega desse capitalismo das palavras. Recupere então tua mão, teu gesto e teu amor das coisas, sílaba por sílaba. Este é o amor das palavras demoradas, moradas, habitadas. Nelas mora em memória e demora o nosso breve encontro com a vida. Um poema não se programa. O poema emerge como se os deuses o dessem. É o fogo secreto das palavras. Assim, o fazemos. Fomos exilados de nossa inteireza. Entoa a veemência nua da palavra, a ebulição da escrivatura. Onde está a palavra extrema que une e reconhece. A palavra irrevogável. A palavra que queima como tocha. A palavra onipotente. Os discursos, frases e palavras que possam ser ouvidas, cujo som ressoe e se espalhe em toda a terra. A palavra que corre veloz, nos traz sobre asas de águia e leva longe. Acredito na persistência do verbo. Coloque freios à língua e modere sua palavra. O texto há de utilizar palavras sábias profundamente meditadas no coração, palavras novas e outras tornadas mais belas. Contei com sua palavra e ela foi  como  uma  rocha. Que nada seja onde fracassa a palavra.

Antônio Laért
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