JORNAL MILENIO VIP

Colunistas - Antônio Laért

A bruta flor da violência

Publicado na edição 158 de Junho de 2016

 “É loucura odiar todas as  rosas  porque uma  te  espetou”.
Antoine de  Saint-Exupéry(1900-1944)

"Esquecer os ancestrais é como ser um riacho sem nascente uma arvoré sem raiz"
Provérbio Chinês

Dizem que  o  que  importa  não  são  os  fatos,  mas  a  versão.  Isso  bem  se  aplica  ao  que  sucedeu  em Magé no último dia dois de abril de 2016, quando a noite daquele  sábado ainda se descortinava sobre a cidade. Bandidos estrategicamente  organizados impuseram toque de recolher  na  urbe,  sob  a  omissão  das autoridades constituídas que, pareceram  ter deixado  a  cena, no tempo em que o  bizarro espetáculo foi apresentado no  palco  principal. O pretexto  foi a acidental e  triste morte  do  menor Matheus  Santos  de Moraes,  por todos  os  motivos lamentável. Porém, com toda  solidariedade que se deve  tributar a essa família,  a verdade não foi bem essa.

E só por aí  se  vê  como  estamos  entregues  à  própria  sorte.  Nenhum  veículo  de  informação se  deteve em apurar o ocorrido,  limitando-se simplesmente  a  repetir  a  afoita versão  oficial construída. E isso fica claro e se revela, quando o primeiro ato dos “revoltados”,  foi exatamente mirar os  transformadores  de  energia que mantém a iluminação da  cidade. Num átimo  de  tempo -  assim  como  o  percurso  de  um  projétil deslocando-se  no  cano  do  revólver  em  busca  de  seu  alvo - a  cidade  ficou  as  escuras.  E ai, ocultados sob  a  penumbra,  os  “revoltados”,  por  razões  outras,  diversas  daquele  pretexto,  impuse ram  o  terror  e o medo, explodindo  bombas, dando  tiros,  quebrando  vidros, vasos,  bancos  de  praça, depredando o comércio, danificando coisas, saqueando,  ateando  fogo,  desfilando pelas  ruas e avenidas da  cidade seu enredo e  alegorias  de  bizarrices.

Não dá para  crer que  o  infortúnio pela  morte  do pequeno  Matheus  tenha  produzido esse  resultado. Com efeito, quem teria habilidade para  atear  fogo  em  ônibus  e,  com  esse seu  ato, ao  cabo e  ao  fim,  queimar catorze  veículos ? Só mesmo alguns homens sem qualidades,  iniciados  na  escola  do  crime.  Magé  sempre foi  marcada   por  ser  uma  cidade  de  um povo alegre, pacato  e  trabalhador,  um lugar  de  tranqüilidade e paz,  no  recôncavo  da  baia  de  guanabara.  Essa característica dos mageenses  ficou  registrada  na  história, no conhecido episódio  “Os  Horrores  de  Magé”, uma invasão das tropas republicanas sobre  os  monarquistas aqui  sitiados no  governo  Floriano Peixoto,  em  1894. Não existe naquele relato do jornalista destacado pelo Jornal do Brasil para cobrir o  evento,  qualquer registro de moradores do  local afrontando os invasores, fossem eles monarquistas ou  republicanos, ainda que  as  tropas  de Floriano tenham entrado e desembarcado  aqui sob gritos de “saque e  degola”. Pois bem, essa  versão  daqueles  “horrores” no  século  XXI,  verdadeira ópera buffa, agora, não  mais por razões históricas como outrora, mas, por pura afronta do crime  organizado  ao estado de direito desorganizado, é realmente triste, desalentador e o pior é o conformar-se com a versão oficial.

As autoridades constituídas, com  algumas  exceções, como os  policiais militares que  guardaram os postos  de combustíveis, só  retornaram de  seu  desmaio quase  duas horas após, quando o mal e o todo dano já estavam consolidados.  Claro  que  foi  um  alento - uma  lufada  de  ar  fresco -  essa  entrada tardia em cena. Porém, o desfecho poderia ter  sido diverso e talvez o mal não se avolumasse tanto, tampouco o espírito dos  mageenses  restasse  tão  mexido e  humilhado. Talvez  quem sabe, essa  versão  oficial sequer existisse. Essa nova  edição dos “horrores de magé” deve servir  como sinal  para  que  aqueles  que  têm  responsabilidades a cumprir adotem doravante as  cautelas  necessárias. O medo não  pode  vencer. A autoestima  tem  que ser  resgatada. A cidade tem que ser novamente povoada e ocupada pela alegria de seus moradores. Que o menino Matheus interceda nesse sentido e  devolva a  todos os mageenses o seu pasmo essencial, aquela mesma pureza e leveza com que  brincava.

Antônio Laért
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